A epidemia de chuteiras cor de rosa

A Copa do Mundo de 2026 começou há poucos dias e já tem um fenômeno que está chamando mais atenção do que alguns jogos: a cor dos pés dos jogadores. Se você assistiu a qualquer...

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A Copa do Mundo de 2026 começou há poucos dias e já tem um fenômeno que está chamando mais atenção do que alguns jogos: a cor dos pés dos jogadores.

Se você assistiu a qualquer partida até agora, reparou. Rosa em todo lugar. Nas chuteiras do Vini Jr. Nas chuteiras dos sul-coreanos , os dez jogadores de linha do time inteiro começaram uma partida com chuteiras rosas. Nas chuteiras de atletas de seleções que não têm nada em comum entre si, exceto o gramado embaixo dos pés.

A primeira impressão é que existe alguma campanha coordenada. Algum acordo nos bastidores. Uma conspiração cor de rosa.

Mas a explicação é mais simples:

Nike, Adidas, Puma e New Balance tomaram a mesma decisão, de forma independente: lançar coleções em tons vibrantes para o Mundial. E o motivo tem uma lógica muito clara. O gerente de desenvolvimento de chuteiras da Nike resumiu bem: o rosa destaca os atletas contra o verde do gramado, tanto nas arquibancadas quanto na TV. E nenhuma das 48 seleções que disputam a Copa tem o rosa como cor predominante no uniforme. Dessa forma, a chuteira não conflita com nada. Ela só aparece.

Visibilidade máxima. Sem custo de identidade.

No universo cripto, existe uma versão muito bem conhecida desse mesmo fenômeno. Só que, nesse caso, pintar a chuteira de rosa raramente tem a mesma elegância.

Lembra do ciclo de hype em torno da tese de privacidade? Monero e Zcash atraíam capital de forma desproporcional. O mercado estava ávido por qualquer projeto que prometesse transações anônimas e dados protegidos. Aí, num intervalo curto, uma série de projetos que não tinham absolutamente nada a ver com privacidade começou a inserir o tema nos roadmaps. Features de privacidade apareceram em whitepapers de projetos de jogos, de protocolos de pagamento, de plataformas de NFT. Todos pintando a chuteira da mesma cor, sem que aquela cor fizesse o menor sentido no contexto do time que vestiam.

O ciclo de inteligência artificial foi mais do mesmo, só que em escala maior.

Quando ficou claro que projetos com qualquer menção a IA estavam atraindo uma parcela desproporcional do capital disponível, o mercado reagiu da maneira que o mercado sempre reage: inundando o espaço com versões oportunistas do tema. Projetos de infraestrutura de blockchain que acordaram com “IA” no nome. Tokens que adicionaram módulos de machine learning sem nenhuma utilidade real. Whitepapers que substituíram seções inteiras por promessas vagas de integração com modelos de linguagem.

A chuteira ficou rosa. Mas o campo não trouxe o mesmo contraste.

A diferença entre as chuteiras da Copa e as ‘chuteiras de cripto’ está exatamente aqui.

Na Copa, a lógica da cor faz sentido independente do time. O rosa destaca no verde. Ponto. Vini Jr. com chuteira rosa vai aparecer mais do que com chuteira preta. Isso é verdade para qualquer jogador, em qualquer seleção, em qualquer estágio da competição. A escolha da cor é oportuna, mas não é falsa.

Em cripto, a chuteira rosa muitas vezes é apenas isso — uma cor. Sem o contraste que o verde do gramado prometia revelar. Um projeto de jogos com “privacidade” adicionada às pressas não vira um protocolo de privacidade. Um token com “IA” no pitch deck não vira infraestrutura de inteligência artificial. A cor atrai o olhar, mas o plano de fundo não colabora.

E o mercado, eventualmente, percebe.

O problema real não é que projetos se adaptem ao ciclo. Na verdade isso é parte do jogo e, em alguns casos, sinaliza agilidade genuína. O problema é quando a adaptação é só de aparência. Quando o roadmap muda mas o produto não.

A chuteira cor de rosa serve para aparecer mais. Mas no final de 90 minutos, o que fica no placar não tem nada a ver com a cor da chuteira.

Em cripto, o equivalente ao apito final costuma ser o próximo ciclo de bear market. É quando o verde do gramado some, a plateia vai embora, e o que sobra são os projetos que tinham substância, e não só visibilidade.

Antes de entrar em qualquer projeto que surgiu “pintado” em cima de um hype, uma pergunta simples ajuda a filtrar bastante:

Esse time jogaria o mesmo jogo com a chuteira preta?

Se a resposta for não, provavelmente o que você está vendo é uma chuteira bonita num time que não sabe jogar bola.

Um grande abraço,

Erich Marinelli.

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